Todos percebemos e sentimos que o «Dia da Criança» é ou deverá ser cada dia da existência humana, cada dia da nossa vida.
Antoine de Saint Exupéry, pela boca do seu «Petit Prince» lembrou-nos que todas as pessoas crescidas, todos nós afinal, já uma vez fomos crianças!
Se bem que os segredos da reposição neuronial tenham determinado o «esquecimento» de muitas das vivências da nossa infância, creio que quase todos assumimos uma nostalgia de saudade da nossa meninice e, porventura, uma certa frustração de não sermos capazes de lembrar mais, de não conseguir trazer ao domínio do consciente mais recordação, mais perspectiva, mais evidência.
Se é que para muitos de nós, muitas das melhores emoções do quotidiano são povoadas pelas melhores recordações da infância, para muitos outros, forças brutais do ser afectivo e mental empurram o passado para as trevas do esquecimento, procurando não trazer à luz da confrontação do presente, as lágrimas da injustiça, o pesadelo da agressão, o pesar do não brincado, a angústia do mal amado.
«Todas as pessoas crescidas já foram crianças uma vez» poderá ter sido, para muitos mais uma oportunidade feliz para recordar, quando porventura, depois de acordados, alguém lhes lembrou, na rádio, num qualquer jornal ou no café da manhã que o dia 1 de Junho é o Dia da Criança.
Porém, o que o «Petit Prince» nos diz do alto do seu «asteróide» qual só mais uma estrela que, de repente, sentimos como nossa, na imensidão dum firmamento azul é, porventura, quase o mesmo em palavras mas brutalmente diferente em sentido - «todos vós já fostes criança uma vez», mais de um terço da vossa vida!
E todo este tempo não deu para ajuizar, para inspirar que o resto da vida não pode deixar de ter um só sentido, um só objectivo, uma só razão de ser?
Eu creio que o que o «Petit Prince» nos quer dizer, qual sentido de coerência da nossa vida feito superego, feito resiliência em cada novo dia é o de que a nossa missão de cidadãos do mundo, em cada um dos nossos «asteróides» é, tão só, a de fazer proporcionar a cada uma das crianças por que somos responsáveis, a cada uma das crianças que connosco coabita entre ovelhas, flores e baóbás, a oportunidade de ter acesso a tudo que mais amamos e desejamos.
Cada criança seria, assim, a flor que cada dia temos que regar para que nunca, nunca mais, essa flor se possa esquecer que fomos nós que a fizemos crescer, de modo a poder, da flor passar a raposa, a estrela, a um novo «Petit Prince».
A viagem de cada um de nós pela criança que fomos tem muito a ver com a viagem que temos de empreender para fazer da nossa missão na terra a de regadores da flor sentida como nossa responsabilidade. | Ler mais
Por | João Gomes-Pedro | Professor Emérito (Academia Portuguesa de Medicina)
Professor Catedrático Jubilado da Universidade de Lisboa
Presidente do Conselho de Administração da Fundação Brazelton/Gomes-Pedro para as Ciências do Bebé e da Família
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